Twilight zone
A estrada é agreste.
Há ainda algum caminho para fazer até ao destino, é talvez altura de parar e comer qualquer coisa.
O sítio é imponente, pedregoso, de vistas largas a bombordo.
Começam as casas da aldeia, um entroncamento à direita leva-nos para o maciço central.
Uma taberna quase na esquina, pode ser ali.
Procuro um lugar para estacionar e nenhum sítio me agrada, não há recantos e a estrada é estreita.
Continuo até à saida da povoação, faço meia-volta e quando dobro a esquina da taberna, avisto quase em frente um parque de estacionamento de uma daquelas coisas beira de estrada anos oitenta.
É para ali.
A companheira do lado diz-me, rindo: "Aqui?"
"Pois, então não é um restaurante?" - agora era sou eu que me rio da escolha.
Vamos lá ver.
O rapaz, no banco de trás, agita-se e dá um berro: "Um Diablo!!!"
É um quadro estranho, um Diablo aqui nestes confins, onde pouco mais há do que pedras...
Saímos. Ele logo para ver o carro.
A primeira porta é do restaurante. Tem ementa e está fechada.
Espreitamos para dentro e vimos gente. Tentamos outra porta, escondida por uns arbustos.
Entramos.
Depois de uma porta estilo faroeste, uma sala à média luz, com uma uma parede branca de projecção onde passa uma daquelas sequências de acidentes de competição automobilística.
No tecto, uma bola de espelhos.
Duas paredes pintadas com temas sobre azul forte.
Em frente, uma espécie de snack-bar, mais iluminado.
À esquerda a passagem para o restaurante, onde divisamos sentada a presumível cozinheira. Tudo isto envolto numa indescritível música de fundo uns decibéis acima do padrão.
Pergunto ao homem atrás do balcão se se arranjam umas sandes.
Ele diz que sim e pergunta se não nos queremos sentar.
Vamos para o fundo da sala azul e sentamo-nos nuns pufes adstritos a umas mesas baixas e vermelhas.
No balcão, quatro ou cinco homens pouco mais do que indiferentes à nossa chegada, começam a falar de qualquer coisa que tinha acontecido num baile.
O tema não é pacífico, envolve qualquer ameaça de pancadaria passada ou futura.
O pai deste, o cunhado daquele, o sobrinho do outro.
Estamos naquela situação em que os augúrios são de tempestade em câmara lenta.
Há conversa mansa mas de desafio.
A bola de espelhos reflecte tonalidades de acidentes em ovais americanas.
A companheira do lado ri-se quando eu a interrogo em silêncio se vamos ou não comer a outro lado.
Twilight zone - diz ela.
Ou Twin Peaks - acrescento.
Estamos em sintonia a desfrutar o clima.
Chegam as bifanas e a cerveja.
Atrás de mim, ouço um ronco poderosíssimo e ambos olhamos para a parede que está mesmo nas nossas costas, tendo a certeza que vai entrar um Lamborghini através dela.
O rapaz corre para a porta de vai-e-vem, passa para um compartimento onde mal se vê uma mesa de bilhar e debruça-se sobre o que parece uma balaustrada de madeira entre espelhos.
Volta entusiasmado e diz: "É que a garagem fica aqui ao lado!"
imagem encontrada aqui e tratada